“O cliente dá 100mil para o pedreiro, mas não dá 1mil para o engenheiro.” Não sei você, mas eu já ouvi muito essa frase. Quero que você pare agora para pensar na tradução dela junto comigo, sem emoção, sem vitimismo, com racionalidade.

O investimento invisível para se tornar engenheiro civil
Ao se formar em engenharia civil, você não comprou apenas um diploma. Você fez um investimento pesado, acumulativo e irreversível de tempo, esforço intelectual e dinheiro.
Antes mesmo da faculdade:
- 3.000 a 4.000 horas de estudo preparatório médio, considerando ensino médio, reforço em exatas e cursinhos
- 2 a 3 anos de preparação para conseguir ingressar e se manter no curso
Durante a graduação:
- 5 anos de curso, em média
- 4.000 a 5.000 horas de aulas, estudos, provas, projetos e estágios
- R$ 60.000 a R$ 120.000 em mensalidades, no caso de universidades privadas
- R$ 0,00 em mensalidades nas universidades públicas, porém com alto custo de tempo integral
- R$ 5.000 a R$ 15.000 em custos indiretos (livros, softwares, transporte, materiais técnicos)
- Anos de renda reduzida ou inexistente durante a formação
Estimativa conservadora do investimento total para se formar engenheiro civil: 8 a 10 anos de dedicação + R$ 70.000 a R$ 140.000 (diretos e indiretos) e antes mesmo de você emitir sua primeira ART, esse custo já foi pago.
O custo de manter um escritório funcionando
Depois da formação, começa um segundo ciclo de investimento contínuo, mensal e obrigatório. Para abrir e manter uma empresa de engenharia, você investe e continua investindo em:
- R$ 1.500 a R$ 3.000 para abertura da empresa (contador, taxas, Junta Comercial, CNPJ)
- Até R$ 2.000 para registro da empresa no CREA
- R$ 600/ano de anuidade do CREA da empresa
- R$ 600/ano de anuidade do CREA do profissional responsável
- 18% a 25% do faturamento em impostos, dependendo do regime tributário
- R$ 700 a R$ 1.400/mês em contabilidade (meio a um salário mínimo)
- R$ 200/ano em certificados digitais
- Custos com alvarás e licenças municipais
- Investimento contínuo em normas técnicas, especializações, treinamentos e cursos
- R$ 100,00 ou mais por ART registrada, para cada trabalho executado
- Responsabilidade técnica, civil e criminal associada a cada serviço prestado
Além disso, a nossa profissão é regulamentada por lei, especificamente a Lei nº 5.194/1966, e fiscalizada pelo Sistema CONFEA/CREA. Isso significa que todo serviço é rastreável, passível de penalidades administrativas, cíveis e criminais, e pode exigir garantias técnicas que, em estruturas, chegam a ser vitalícias.
Estimativa conservadora de custo anual para manter um escritório mínimo operando: R$20.000 a R$40.000/ano, sem considerar impostos sobre faturamento e sem considerar o pró-labore do engenheiro.
Com toda essa bagagem pesada, você quer concorrer com alguém que não tem nenhuma dessas obrigações.
A concorrência desleal que o mercado normalizou
Veja esse exemplo que aconteceu comigo:
“Certa vez, quando ainda atuava como técnico em edificações, me pediram um orçamento para troca de um piso cerâmico de uma casa. Eu fui até o local, entendi os problemas que causaram o desplacamento generalizado que eram ausência de juntas de dilatação, baixo espaçamento entre as peças e não teve dupla colagem. Voltei para casa, cotei o material, fiz um croqui do ambiente e calculei o material, elaborei uma proposta e enviei ao cliente. O resultado? Ele me retornou dizendo que fecharia com um pedreiro que fez pela metade do preço.
Tempos depois descobri quem era o profissional e detalhes de como foi o serviço na perspectiva dele, foi mais ou menos assim: perguntou a área do ambiente ao cliente, pediu umas fotos, verbalizou o preço. Fez o serviço de chinelo Havaianas e bermuda, ainda usou o chinelo para rejuntar, recebeu e foi embora sem emitir nota fiscal ou qualquer documento que comprove que ele esteve ali.”**
Ali aprendi uma lição fundamental: nem todo cliente é para mim. Se aquele piso descolar novamente, há grandes chances de o cliente nem ter salvo o contato do pedreiro. Vai pagar de novo para outro refazer e seguir a vida, absorvendo o prejuízo como algo “normal”.
Isso significa que engenheiros perdem orçamentos, principalmente em obras e reformas, para profissionais não formais porque tentam competir onde não deveriam. Além de desalinhamento com o que cliente final acredita. Se o cliente prefere alguém sem qualificação formal, ele não tem nível de consciência suficiente para:
- perceber riscos diretos ou indiretos;
- entender claramente as consequências;
- valorizar prevenção/antecipação;
- compreender quais dores dele você resolve.
Encerrando…
Estou cada vez mais convicto de que a engenharia resolve qualquer nível de problema. Mas problemas simples seguem outra lógica de decisão:
- sentiu dor de dente → dentista
- sentiu aperto no peito → médico
- carro quebrou → mecânico
- problema jurídico → advogado
- reformar minha casa → primo que já fez uma vez, YouTube, ChatGPT, “vou tentar eu mesmo”, pedreiro, etc.
Agora observe o ponto de ruptura:
Quando o problema escala em risco, a lógica muda. Ninguém trata câncer com vídeo do YouTube. Ninguém resolve cirurgia cardíaca com o primo sabichão. Ninguém assume risco de prisão resolvendo sozinho um processo grave.
Da mesma forma:
- problemas construtivos graves, com risco de colapso, perdas patrimoniais elevadas e risco à vida → engenheiro(a)/arquiteto(a).
E aqui fica a provocação final para você que atua com patologia das construções:
Quanto mais específico for o problema e quanto maiores forem as consequências potenciais, maiores são as chances de o cliente entender que não está comprando um serviço, mas comprando responsabilidade técnica e segurança. É nesse ponto que a engenharia deixa de ser “cara” e passa a ser necessária.
Eu poderia continuar citando alguns dados que tenho a respeito, mas vou aguardar a opinião de vocês para saber se devo trazer mais. Comentem!
Espero ter contribuído de alguma forma.
Perito Pedro Coelho | Engenheiro Civil
Belo Horizonte / Minas Gerais

